sexta-feira, 12 de julho de 2013

PAS013. Letreiro Aliciante

O viajante cravou os olhos no pitoresco letreiro plantado num dos lados do poeirento caminho. Era feito de tábuas pintadas de branco e sobre elas destacavam-se letras vermelhas, muito bem traçadas, formando a seguinte legenda:
 
«Forasteiro, se és inteligente, volta para trás com o teu cavalo. Se não o és, segue para diante.»
 
Encolheu os ombros o caminheiro, ajeitou melhor o amplo «sombrero» e continuou para a frente ao passo lento da sua montada.
Não tinha andado um quilómetro, quando um novo letreiro o fez parar de súbito:
 
«Forasteiro, estás no Desfiladeiro de Trovão. Ainda estás a tempo. Roda nos calcanhares e não avances.»
 
Impassível, o viajante continuou a sua marcha, dando-se até ao divertimento de maatar o tempo assobiando a velha canção: «Eu estou lembrando o meu amor».
O trote da sua montada era bastante lento pois que o calor abafado da tarde não permitia mais. Relanceou o olhar pelo horizonte. O caminho ia-se tornando menos poeirento e agreste. Subitamente, tornou-se mais duro, até se transformar como se fosse talhado em rocha viva.
O que fazia intrigar o solitário viajante, que se aventurava naquele insólito caminho, era o facto de o solo não lhe parecer de configuração natural. A presença de um terceiro letreiro mais incisivo despertou-lhe a atenção.
 
«Isto é o Desfiladeiro do Trovão, amigo. Deus te proteja»
 
Desta vez um sorriso aflorou aos lábios daquele jovem viajante, cujo rosto mostrava inteligência, bondade e dedicação. No entanto, foi sol de pouca dura, pois se dissipou rapidamente quando a sua montada dobrou a curva seguinte e na sua frente surgiu um panorama bastante largo o qual dizia bem o que era o Desfiladeiro do Trovão.
 

O viajante, pondo a mão em pala, alongou o olhar observando cuidadosamente o que o cercava. As vertentes das encostas tinham a mesma cor escura do caminho e essa feia tonalidade estendia-se até aos terreiros das casas, que espalhadas a esmo constituíam o povoado de aspeto pouco acolhedor. Tudo triste, pesado, asfixiante, pobre e sem beleza…
(Coleção Arizona, nº 3)

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